Quem conhece, sabe: a menina só escreve quando está em crise, ou apaixonada, ou tem um bom assunto. Quando tem assunto, poucas vezes a menina escreve em blogs. Ter assunto é algo que a torna prolixa e ninguém tem paciência de ler. Aí a menina se deprime.
Hoje é um dia que a menina separou para ler Perrenoud. Foi um sacrifício para a menina encontrá-lo em meio às estantes da biblioteca porque ela não é boa em ordem alfabética, nem em números de chamada. E depois disto: o livro. Página 27, página 28, página 32. A menina pulou a introdução. Ela sempre acha um abuso ter que ler no início aquilo que o autor escreveu só no final. Se o livro é bom, ela volta. Depois lê as orelhas, a bibliografia, as notas dos editores, a ficha catalográfica e tudo o mais onde encontra letrinhas. Se o livro é ruim, ela se sente aliviada por ter perdido o falso início.
Perrenoud é bom. Foi só o dia errado. A menina teve vontade de ler outras coisas. Coisas de pessoas conhecidas e não-francesas. Nada contra às pessoas francesas, é só porque ela não conhece ninguém que seja francês. E aí a menina abriu blogs que se fossem livros estariam empoeirados, com teias de aranhas e comidos por cupins. Malditos cupins! Comem sempre pedaços de palavras e depois já não se pode compreender se era apertar ou apartar. E nem é preciso dizer que isso muda muita coisa. Mas ela, prolixa que só, diz.
E assim, na vontade das leituras conhecidas, ela encontrou uma leitura nova. E foi melhor ainda que as leituras antigas porque significava que os amores antigos podem também serem amores novos. Não é lindo? A menina acha que é. E exatamente na semana em que a menina tinha decidido abandonar de uma vez por todas aquele amor que nunca ficava e que nasceu aqui mesmo em segredo, ela parou e sorriu.
Sorriu porque é bom lembrar. Sorriu porque dia desses ela fez um rabisco na agenda que cospia compromissos e costumava zombar dela por testemunhar os horários e prazos não cumpridos. E nesse rabisco, a menina falou que tomava café só para impressionar e parecer adulta, mas na verdade era chocolate quente que ela bebia. E então a menina sorriu porque foi ela mesma quem inventou a crise, assim como o café.
Deve ser saudade, o que sente a menina. Saudade dos dias vazios e das tardes chuvosas. Saudade dos fragmentos, dos rabiscos. Saudade daqui.
No fim das contas, a menina quer dizer que o tempo passou e ela agora sabe se declarar. E existe lá dentro, bem fundo uma vontade gigante de jogar todos os cacarecos que ela carrega na bolsa no lixo e sentar e rir da agenda. Que tipo de agenda prevê um dia para Perrenoud? A mesma que marca horários para encontros de amor, é verdade. Ainda bem que quando a menina entra em crise ou se apaixona, ela pára e escreve. Ainda bem que ela ainda se apaixona de novo, pelas pessoas antigas, assim como pelas novas. E quem sabe, num cantinho esquecido no meio das rasuras, tenha algum espaço ainda para que ela ame até Perrenaud.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Dicionário: Abandono
Música triste tocada milhões de vezes seguidas; rejeição; orgulho ferido; sucessivas tentativas de contato sem resposta; prisão de vidro que não deixa ninguém sair, mas expõe qualquer um ao ridículo da tentativa; esperar um sms um dia e uma noite inteira; insônia; confundir o som do eco com uma resposta; aceitar pedidos de desculpas como quem aceita um anestésico; tristeza profunda; ignorar; grande e definitivo buraco no coração que precisa de 15 remendos para estancar o sangue; perceber que quando você pediu para não soltarem de sua mão, já não tinha ninguém mais lá; declarações de amor dissolvidas nos pensamentos egoístas de alguém que deixou de se importar.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Porque é preciso se desprender...
Num dia você ama. É correspondida. É a pessoa mais feliz do mundo. É a pessoa mais feliz de todas as pessoas mais felizes do mundo. Tudo em você é completo.
Você nem queria.. Nem tava procurando... Você não estava nem aí pro amor. Você nem queria saber de amor. Você só estava de bem com você e aí... Aí vem o amor.
E você é a pessoa mais linda. É a pessoa mais inteligente. A pessoa mais interessante. A mais tudo da face da terra. Qualquer um daria qualquer coisa por você. E você pode rir de todos os "qualquer um" que aparecerem, porque você escolheu um amor. Você pode dizer que escolheu com a boca cheia. E foi a melhor escolha!
E de repente você já não pode respirar sem amor. Você não pode mais nada. Você precisa viver aquilo. Você precisa, precisa, precisa.
É nessa hora que o amor diz que você engordou. Você não é mais a mesma. Você é uma gorda, chata, anti-social. Você é um pé-no-saco. Você só estraga tudo. Sempre estraga tudo. E você tem vícios terríveis. E você é mau-humorada. E você esquece de mim. E céus, como você tá feia! E eu não sei mais porque quis você um dia. E eu não vejo mais sentido pra nós. E eu não vejo futuro. E eu estou cansado. E eu não aguento mais. E eu vou sair, vou fazer alguma coisa que me deixe feliz.
E você fica aí. Você não vale um nada, mas você é minha. E eu gosto de manter as coisas minhas. Não vou deixar você ir. Não posso deixar você me descartar assim. Ninguém me descarta assim, ainda mais um nada! Um nada gorda, chata e mau-humorada que nem você.
E então você precisa partir. Você precisa se desprender. Você precisa ouvir afetos e não cobranças. Você precisa de você de novo. E você se desprende, mas só sobra o vácuo. O imenso vácuo. O grande vazio dos sonhos perdidos. O vazio do fim das críticas. O vazio do fim das cobranças. O vazio do fim das discussões intermináveis por qualquer coisa. O vazio de tudo o que você não queria mais, mas continuava agarrada porque não sabia mais o que seria de tudo aquilo que você quis se você não quizesse mais!
E aí é hora de juntar os pedaços.
Você nem queria.. Nem tava procurando... Você não estava nem aí pro amor. Você nem queria saber de amor. Você só estava de bem com você e aí... Aí vem o amor.
E você é a pessoa mais linda. É a pessoa mais inteligente. A pessoa mais interessante. A mais tudo da face da terra. Qualquer um daria qualquer coisa por você. E você pode rir de todos os "qualquer um" que aparecerem, porque você escolheu um amor. Você pode dizer que escolheu com a boca cheia. E foi a melhor escolha!
E de repente você já não pode respirar sem amor. Você não pode mais nada. Você precisa viver aquilo. Você precisa, precisa, precisa.
É nessa hora que o amor diz que você engordou. Você não é mais a mesma. Você é uma gorda, chata, anti-social. Você é um pé-no-saco. Você só estraga tudo. Sempre estraga tudo. E você tem vícios terríveis. E você é mau-humorada. E você esquece de mim. E céus, como você tá feia! E eu não sei mais porque quis você um dia. E eu não vejo mais sentido pra nós. E eu não vejo futuro. E eu estou cansado. E eu não aguento mais. E eu vou sair, vou fazer alguma coisa que me deixe feliz.
E você fica aí. Você não vale um nada, mas você é minha. E eu gosto de manter as coisas minhas. Não vou deixar você ir. Não posso deixar você me descartar assim. Ninguém me descarta assim, ainda mais um nada! Um nada gorda, chata e mau-humorada que nem você.
E então você precisa partir. Você precisa se desprender. Você precisa ouvir afetos e não cobranças. Você precisa de você de novo. E você se desprende, mas só sobra o vácuo. O imenso vácuo. O grande vazio dos sonhos perdidos. O vazio do fim das críticas. O vazio do fim das cobranças. O vazio do fim das discussões intermináveis por qualquer coisa. O vazio de tudo o que você não queria mais, mas continuava agarrada porque não sabia mais o que seria de tudo aquilo que você quis se você não quizesse mais!
E aí é hora de juntar os pedaços.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
“Toda mulher é um mistério a ser desvendado…
Ela nada esconde de seu verdadeiro amante.
A cor de sua pele pode nos indicar como proceder.
O matiz, como o da rosa, róseo e pálido…
Ela deve ser persuadida a se abrir com ardor… Como o do sol.
A pele pálida das ruivas…
Exige a lascívia da onda batendo na praia…
Para despertar o interior e trazer à tona as espumosas delícias do amor.
Embora não haja metáfora que descreva como amar uma mulher…
Eu diria que é como tocar um instrumento raro.
Será que um Stradivarius…
Sente o mesmo que o violinista que consegue…
tirar a nota perfeita de seu coração?”Trecho do filme Don Juan de Marco
domingo, 7 de dezembro de 2008
Um brinde à primeira vez
“Vinho, mas só em ocasiões especiais.” Quando ela mostrou a garrafa eu sorri, era um momento especial. Um brinde à primeira vez, porque algo em mim dizia que não seria a última. Um beijo para provar aqueles lábios doces e aquela adolescente sensação de não saber o que fazer com as mãos, já que o único desejo era o de tomá-la. E foi o que fiz, foi o que fizemos. Devagarzinho, porque apesar da sede, não havia pressa. Porque só uma mulher sabe o prazer que é ser deliciosa e lentamente seduzida. Porque não era novidade, mas era a primeira vez. Porque o desejo de guardar a melhor lembrança daquele primeiro encontro, era maior que o arrebatamento das nossas vontades. Porque aqueles olhos iluminavam a penumbra do quarto, e o tato era cada vez mais aguçado pela curiosidade e o desejo. E então, cada peça despida era um presente, cada sensação do toque era uma dádiva, mas nada se compara ao prazer de percebê-la encharcada só com estas doces carícias. Foi instinto, imediato, também melei. E provei. Provamos. Nos beijamos, nos bebemos, nos comemos, porque a minha sede era dela e a sede dela de mim. Porque nunca as horas passaram tão rápido, porque os gemidos nunca foram tão intensos, porque a vontade nunca foi tanta e o prazer nunca foi tão explícito e sem vergonha. E quando lembro melo, sorrio, contraio, estremeço e gozo. “À primeira vez!”, foi o brinde. Memorável, inesquecível."
B. em seu blog "A vida Secreta"
http://www.avidasecreta.com/um-brinde-a-primeira-vez/
B. em seu blog "A vida Secreta"
http://www.avidasecreta.com/um-brinde-a-primeira-vez/
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Teimosia
A menina caminha de um lado para o outro. O olhar sério, a cara amarrada. Inquieta, repetindo mentalmente cada frase, sem falar nada. Assim passa dez longos minutos. Os dez mais longos minutos. E só depois disso, fala com ares de decidida:
_ Quero escrever sobre sexo!
_ Ora, você é uma menina! O que sabe sobre sexo?
_ Nada! Mas por isso mesmo...
_ Por isso mesmo você deveria se preservar!
A menina respira fundo. Conta até três. Conta até dez. Conta até vinte e dispara:
_ Você acha que tem alguma coisa de errado com o sexo?
_ Não. Eu acho que tem com o modo como as pessoas encaram uma menina que pensa em sexo.
_ Você acha que é vergonhoso uma menina pensar em sexo?
_ Acho que pode se transformar num fardo difícil de carregar.
_Você acha que eu seria mal interpretada?
_ Acho.
A menina senta e segura o próprio rosto com as duas mãos, os braços apoiados na mesa e o olhar parado, prestando atenção numa migalha de pão minúscula. Mais um instante e ela levanta novamente os olhos, firmes:
_ Mas eu quero!
_ Quero escrever sobre sexo!
_ Ora, você é uma menina! O que sabe sobre sexo?
_ Nada! Mas por isso mesmo...
_ Por isso mesmo você deveria se preservar!
A menina respira fundo. Conta até três. Conta até dez. Conta até vinte e dispara:
_ Você acha que tem alguma coisa de errado com o sexo?
_ Não. Eu acho que tem com o modo como as pessoas encaram uma menina que pensa em sexo.
_ Você acha que é vergonhoso uma menina pensar em sexo?
_ Acho que pode se transformar num fardo difícil de carregar.
_Você acha que eu seria mal interpretada?
_ Acho.
A menina senta e segura o próprio rosto com as duas mãos, os braços apoiados na mesa e o olhar parado, prestando atenção numa migalha de pão minúscula. Mais um instante e ela levanta novamente os olhos, firmes:
_ Mas eu quero!
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