segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sem título número qual? (ou Perrenoud pode esperar)

Quem conhece, sabe: a menina só escreve quando está em crise, ou apaixonada, ou tem um bom assunto. Quando tem assunto, poucas vezes a menina escreve em blogs. Ter assunto é algo que a torna prolixa e ninguém tem paciência de ler. Aí a menina se deprime.

Hoje é um dia que a menina separou para ler Perrenoud. Foi um sacrifício para a menina encontrá-lo em meio às estantes da biblioteca porque ela não é boa em ordem alfabética, nem em números de chamada. E depois disto: o livro. Página 27, página 28, página 32. A menina pulou a introdução. Ela sempre acha um abuso ter que ler no início aquilo que o autor escreveu só no final. Se o livro é bom, ela volta. Depois lê as orelhas, a bibliografia, as notas dos editores, a ficha catalográfica e tudo o mais onde encontra letrinhas. Se o livro é ruim, ela se sente aliviada por ter perdido o falso início.

Perrenoud é bom. Foi só o dia errado. A menina teve vontade de ler outras coisas. Coisas de pessoas conhecidas e não-francesas. Nada contra às pessoas francesas, é só porque ela não conhece ninguém que seja francês. E aí a menina abriu blogs que se fossem livros estariam empoeirados, com teias de aranhas e comidos por cupins. Malditos cupins! Comem sempre pedaços de palavras e depois já não se pode compreender se era apertar ou apartar. E nem é preciso dizer que isso muda muita coisa. Mas ela, prolixa que só, diz.

E assim, na vontade das leituras conhecidas, ela encontrou uma leitura nova. E foi melhor ainda que as leituras antigas porque significava que os amores antigos podem também serem amores novos. Não é lindo? A menina acha que é. E exatamente na semana em que a menina tinha decidido abandonar de uma vez por todas aquele amor que nunca ficava e que nasceu aqui mesmo em segredo, ela parou e sorriu.

Sorriu porque é bom lembrar. Sorriu porque dia desses ela fez um rabisco na agenda que cospia compromissos e costumava zombar dela por testemunhar os horários e prazos não cumpridos. E nesse rabisco, a menina falou que tomava café só para impressionar e parecer adulta, mas na verdade era chocolate quente que ela bebia. E então a menina sorriu porque foi ela mesma quem inventou a crise, assim como o café.

Deve ser saudade, o que sente a menina. Saudade dos dias vazios e das tardes chuvosas. Saudade dos fragmentos, dos rabiscos. Saudade daqui.

No fim das contas, a menina quer dizer que o tempo passou e ela agora sabe se declarar. E existe lá dentro, bem fundo uma vontade gigante de jogar todos os cacarecos que ela carrega na bolsa no lixo e sentar e rir da agenda. Que tipo de agenda prevê um dia para Perrenoud? A mesma que marca horários para encontros de amor, é verdade. Ainda bem que quando a menina entra em crise ou se apaixona, ela pára e escreve. Ainda bem que ela ainda se apaixona de novo, pelas pessoas antigas, assim como pelas novas. E quem sabe, num cantinho esquecido no meio das rasuras, tenha algum espaço ainda para que ela ame até Perrenaud.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dicionário: Abandono

Música triste tocada milhões de vezes seguidas; rejeição; orgulho ferido; sucessivas tentativas de contato sem resposta; prisão de vidro que não deixa ninguém sair, mas expõe qualquer um ao ridículo da tentativa; esperar um sms um dia e uma noite inteira; insônia; confundir o som do eco com uma resposta; aceitar pedidos de desculpas como quem aceita um anestésico; tristeza profunda; ignorar; grande e definitivo buraco no coração que precisa de 15 remendos para estancar o sangue; perceber que quando você pediu para não soltarem de sua mão, já não tinha ninguém mais lá; declarações de amor dissolvidas nos pensamentos egoístas de alguém que deixou de se importar.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Porque é preciso se desprender...

Num dia você ama. É correspondida. É a pessoa mais feliz do mundo. É a pessoa mais feliz de todas as pessoas mais felizes do mundo. Tudo em você é completo.

Você nem queria.. Nem tava procurando... Você não estava nem aí pro amor. Você nem queria saber de amor. Você só estava de bem com você e aí... Aí vem o amor.

E você é a pessoa mais linda. É a pessoa mais inteligente. A pessoa mais interessante. A mais tudo da face da terra. Qualquer um daria qualquer coisa por você. E você pode rir de todos os "qualquer um" que aparecerem, porque você escolheu um amor. Você pode dizer que escolheu com a boca cheia. E foi a melhor escolha!

E de repente você já não pode respirar sem amor. Você não pode mais nada. Você precisa viver aquilo. Você precisa, precisa, precisa.

É nessa hora que o amor diz que você engordou. Você não é mais a mesma. Você é uma gorda, chata, anti-social. Você é um pé-no-saco. Você só estraga tudo. Sempre estraga tudo. E você tem vícios terríveis. E você é mau-humorada. E você esquece de mim. E céus, como você tá feia! E eu não sei mais porque quis você um dia. E eu não vejo mais sentido pra nós. E eu não vejo futuro. E eu estou cansado. E eu não aguento mais. E eu vou sair, vou fazer alguma coisa que me deixe feliz.

E você fica aí. Você não vale um nada, mas você é minha. E eu gosto de manter as coisas minhas. Não vou deixar você ir. Não posso deixar você me descartar assim. Ninguém me descarta assim, ainda mais um nada! Um nada gorda, chata e mau-humorada que nem você.

E então você precisa partir. Você precisa se desprender. Você precisa ouvir afetos e não cobranças. Você precisa de você de novo. E você se desprende, mas só sobra o vácuo. O imenso vácuo. O grande vazio dos sonhos perdidos. O vazio do fim das críticas. O vazio do fim das cobranças. O vazio do fim das discussões intermináveis por qualquer coisa. O vazio de tudo o que você não queria mais, mas continuava agarrada porque não sabia mais o que seria de tudo aquilo que você quis se você não quizesse mais!

E aí é hora de juntar os pedaços.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

“Toda mulher é um mistério a ser desvendado…
Ela nada esconde de seu verdadeiro amante.
A cor de sua pele pode nos indicar como proceder.
O matiz, como o da rosa, róseo e pálido…
Ela deve ser persuadida a se abrir com ardor… Como o do sol.
A pele pálida das ruivas…
Exige a lascívia da onda batendo na praia…
Para despertar o interior e trazer à tona as espumosas delícias do amor.
Embora não haja metáfora que descreva como amar uma mulher…
Eu diria que é como tocar um instrumento raro.
Será que um Stradivarius…
Sente o mesmo que o violinista que consegue…
tirar a nota perfeita de seu coração?”

Trecho do filme Don Juan de Marco

domingo, 7 de dezembro de 2008

Um brinde à primeira vez

“Vinho, mas só em ocasiões especiais.” Quando ela mostrou a garrafa eu sorri, era um momento especial. Um brinde à primeira vez, porque algo em mim dizia que não seria a última. Um beijo para provar aqueles lábios doces e aquela adolescente sensação de não saber o que fazer com as mãos, já que o único desejo era o de tomá-la. E foi o que fiz, foi o que fizemos. Devagarzinho, porque apesar da sede, não havia pressa. Porque só uma mulher sabe o prazer que é ser deliciosa e lentamente seduzida. Porque não era novidade, mas era a primeira vez. Porque o desejo de guardar a melhor lembrança daquele primeiro encontro, era maior que o arrebatamento das nossas vontades. Porque aqueles olhos iluminavam a penumbra do quarto, e o tato era cada vez mais aguçado pela curiosidade e o desejo. E então, cada peça despida era um presente, cada sensação do toque era uma dádiva, mas nada se compara ao prazer de percebê-la encharcada só com estas doces carícias. Foi instinto, imediato, também melei. E provei. Provamos. Nos beijamos, nos bebemos, nos comemos, porque a minha sede era dela e a sede dela de mim. Porque nunca as horas passaram tão rápido, porque os gemidos nunca foram tão intensos, porque a vontade nunca foi tanta e o prazer nunca foi tão explícito e sem vergonha. E quando lembro melo, sorrio, contraio, estremeço e gozo. “À primeira vez!”, foi o brinde. Memorável, inesquecível."

B. em seu blog "A vida Secreta"
http://www.avidasecreta.com/um-brinde-a-primeira-vez/

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Teimosia

A menina caminha de um lado para o outro. O olhar sério, a cara amarrada. Inquieta, repetindo mentalmente cada frase, sem falar nada. Assim passa dez longos minutos. Os dez mais longos minutos. E só depois disso, fala com ares de decidida:

_ Quero escrever sobre sexo!
_ Ora, você é uma menina! O que sabe sobre sexo?
_ Nada! Mas por isso mesmo...
_ Por isso mesmo você deveria se preservar!

A menina respira fundo. Conta até três. Conta até dez. Conta até vinte e dispara:

_ Você acha que tem alguma coisa de errado com o sexo?
_ Não. Eu acho que tem com o modo como as pessoas encaram uma menina que pensa em sexo.
_ Você acha que é vergonhoso uma menina pensar em sexo?
_ Acho que pode se transformar num fardo difícil de carregar.
_Você acha que eu seria mal interpretada?
_ Acho.

A menina senta e segura o próprio rosto com as duas mãos, os braços apoiados na mesa e o olhar parado, prestando atenção numa migalha de pão minúscula. Mais um instante e ela levanta novamente os olhos, firmes:

_ Mas eu quero!